A jarra e o vinho
Victor Diomondes, assistente de direção d’O Avesso de Eva, e cúmplice da diretora Amanda Maia, fala sobre o espetáculo, em sua atual presentificação.
Inspirado no cinema noir, a diretora Amanda Maia e o Teatro Saladistar montam O Avesso de Eva no final de 2009. Os atores Ciro Sales, Vivian Rigueira e Will Brandão aceitaram dar vida aos três personagens da peça: Mercúrio, Diana e Heitor. O espetáculo retorna no Teatro Gamboa Nova, ainda mais denso. E essa qualidade foi obtida depois de muita lapidação.
A forma de fazer um personagem faz parte da realização de um ator. Esse personagem possui um corpo, uma voz, um andar. Essa forma será determinada pela forma da encenação.
Embora o noir seja um gênero, possuindo temas, recursos e tipos recorrentes – como o detetive, a corrupção da sociedade, o crime como fio condutor da trama – foram selecionados elementos de sua forma para fazer parte dessa encenação: o ambiente de mistério e tensão crescentes, com uma iluminação que trabalha com claro e escuro.
O mesmo ocorreu com a interpretação dos personagens. Cada gesto foi construído e trabalhado pela direção, pelo coreógrafo e pelo elenco, num trabalho digno de ser chamado de coletivo. A forma criada por eles foi inspirada na forma como os atores do cinema noir construíam seus personagens: uma expressão corporal e vocal que não é natural, que mostra um contraste entre o que é falado e o que é gesticulado. O contraste entre preto e branco, claro e escuro, verdade e mentira, é mostrado pelos atores de um filme noir. Afinal, o mistério surge da dúvida que cada personagem lança ao espectador. Nada é definitivo até a resolução do mistério, e nada é o que parece e o que é dito ser.
Essa forma foi desenvolvida em duas temporadas no Café Teatro Zélia Gattai. E agora que ela se encontra em seu estado mais lapidado, os atores encontram um maior espaço para preencher essa forma de uma energia pesada, latente, vibrante. Vi como Ciro, Vivian e Will cresceram, e fico feliz de ter visto toda a competência e profissionalismo deles durante o processo. Mas nessa temporada, eles parecem estar em uma freqüência mais ritualística.
Parece desmedido citar ritual, já que escrevo sobre um espetáculo baseado em noir, um gênero que com toda a certeza não trata sobre isso. O ritual religioso é uma forma, um conjunto de signos construídos que são compreendidos pela convenção, mas que em essência evoca energias, memórias, vontades, ligações.
O que é evocado nesse espetáculo? Talvez o espectador deva descobrir. Pois ele faz parte do ritual também, embora não estejamos tratando sobre religião. Os atores estão evocando energias que estão contidas nessas palavras:
Quente Lascívia Quimera Urgência Desejo Concupiscência Desmedida Sombra Sede Ambigüidade Ardência Suscetível Calor Suor Sexo Posse Compulsão Luxúria Obsessão Busca Avesso Carne Insônia Sabor Delírio
São essas as palavras que são o conteúdo desse espetáculo. São elas que a forma estética – narrativa, cênica, dramática – guarda, como um jarro de vinho que tem como o único objetivo servir a quem desejar beber do conteúdo. Seja esse alguém cristão ou ébrio.
Encerrando esse texto, gostaria de convidar ao leitor a experimentar esse espetáculo, e desvendar o mistério e o avesso de Eva contido nesses personagens.
Você está lendo o texto “A jarra e o vinho”, uma postagem do blog O Avesso de Eva
- Publicado em:
- 07.21.10 / 4am
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